A força da ancestralidade negra, que atravessa gerações e molda novas histórias, foi o grande destaque de um encontro promovido pelo Negritudes, uma importante iniciativa da Globo. O evento, que aconteceu nesta segunda-feira (3), em Salvador, na Bahia – a cidade com a maior população negra fora do continente africano –, serviu para discutir temas cruciais e apresentar as novidades do projeto para 2026.
No cenário inspirador do pôr do sol, o Teatro Sesi Rio Vermelho recebeu personalidades e artistas para celebrar a cultura negra e as narrativas que resistem e prosperam. O encontro marcou o início de uma edição que promete ser ainda mais abrangente e impactante que as anteriores.
Roda de Conversa Impulsiona o Legado
O coração do evento foi uma roda de conversa poderosa, mediada pela jornalista Luana Souza. Nomes como Dan Orrico (O Kanalha), Carlinhos Brown, Larissa Luz e Beto Jamaica se sentaram juntos para aprofundar discussões sobre ancestralidade, música, legado, inspiração e, claro, a rica cultura negra. Antes da conversa principal, o público foi presenteado com uma apresentação vibrante do projeto de percussão Repiquesia, liderado pelo educador musical Geraldo Marques, mestre da famosa Escola Olodum. Geraldo aproveitou a oportunidade para contar sua própria história e a do projeto, enfatizando como iniciativas sociais abrem caminhos e ampliam as perspectivas para jovens negros e periféricos.
Durante o debate, ficou claro o reconhecimento das estratégias que pessoas negras usaram, ao longo da história, para se manterem em posições de destaque, mesmo em meio a estruturas que muitas vezes tentam excluí-las.
Negritudes 2026: Expansão e Novas Oportunidades
Ronald Pessanha, líder do Festival Negritudes, revelou ao BN Hall a proposta central da edição deste ano: dar voz às histórias negras, contadas por quem as vive, e valorizar os saberes passados de geração em geração. Ele destacou a conexão especial com a capital baiana:
"Salvador abraçou o Negritudes desde a primeira edição em que a gente veio pra cá, e cada vez mais o público vem junto com o projeto. E o que a gente pensou em fazer no Carnaval? Já que a gente está falando de cultura e está falando de negritudes, a gente precisa estar em Salvador."
Pessanha também adiantou uma parceria importante com o Camarote 2222 para o Carnaval, que vai selecionar cantores de projetos sociais ou em início de carreira para se apresentar no espaço. "A gente sabe como é a questão do acesso a esses espaços, como é importante a gente ter essa troca entre os talentos que já têm uma carreira consolidada e quem está começando, porque só assim a gente consegue abrir portas", explicou.
A visão para 2026 é ambiciosa: o Negritudes vai ir além dos festivais, com ações paralelas aos eventos principais que acontecerão ao longo de todo o ano.
Vozes da Comunidade: Impacto e Inspiração
Um dos participantes da roda de conversa, O Kanalha, compartilhou a emoção de fazer parte do encontro:
"Como um jovem, para mim é algo que soma muito na minha vida pessoal e na minha vida artística, então tem uma importância gigantesca na minha vida (...). A gente fica feliz e fica também, às vezes como eu fiquei, um pouco nervoso e ansioso ao mesmo tempo, por saber o tamanho que é [o evento]. E quando bate essa ansiedade é porque tem importância para a gente. Espero nunca perder isso e nunca, jamais, irei normalizar. Me sinto muito feliz (...) quanto mais a gente tiver lugares e voz para poder espalhar a nossa cara preta, a nossa palavra preta, com certeza a nossa Bahia fica feliz e a gente vai tomando posse, de fato, do que é nosso."
A atriz Edvana Carvalho, conhecida por trabalhos como “Ó Paí, Ó”, “Renascer” e “Vale Tudo”, além do famoso bordão “É a Bahia!”, também estava presente. Ela ressaltou a importância do Negritudes como um local de união e visibilidade artística:
"Toda vez que o Negritudes reúne potências, já é um evento grande em si, porque é um espaço muito importante, seja qual for a época do ano, para a gente discutir presente e futuro, para a gente discutir empreendimentos afro-brasileiros, para a gente discutir novos rumos para a nossa juventude afro, que está aí em todos os bairros, e para os artistas se integrarem com o que está acontecendo na sociedade."
Quando perguntada sobre um conselho para as mulheres negras, Edvana foi carinhosa e direta:
"Eu diria que elas nunca desistissem delas, porque a gente é preciosa demais para ficar pensando no que os outros pensam, para se incomodar com os outros. Foque em você, pense em você, estude você, no que você quer fazer, aprenda você e cuide das pessoas que você acha que valem a pena para você. Vamos nos amar entre nós."
O evento contou com a presença de muitas outras personalidades negras, incluindo a comunicadora Val Benvindo, o ator, cantor e apresentador Felipe Veloso, a influenciadora Beberes, e o ator Sulivã Bispo. Para quem viveu a experiência de perto, ver tantas pessoas negras em posições de destaque foi mais do que um encontro cultural; foi um gesto político, essencial para ampliar o diálogo e construir um futuro mais justo.
Esta será a terceira vez que o Festival Negritudes acontece em Salvador, em parceria com a Rede Bahia. A iniciativa chegou à cidade em 2024 e, no ano passado, foi realizada na Casa Baluarte, no Santo Antônio Além do Carmo. A data da edição de 2026 ainda não foi anunciada.







