A Lavagem de Itapuã, que acontece em Salvador, na Bahia, é muito mais que um evento religioso ou um simples folguedo. Para quem vive e respira a cultura do bairro, a festa é uma celebração profunda da comunidade, de suas raízes e da sua rica história ancestral. Nesta quinta-feira (5), em meio à efervescência da festividade, vozes de ativistas comunitários se levantaram para lembrar a todos o caráter social e a força ancestral que move essa tradição secular.
Itapuã, famoso por seu clima boêmio e suas paisagens litorâneas, se transforma anualmente para a sua lavagem, uma festa popular que já dura 121 anos. Essa celebração é, para os nativos, um momento de reafirmar a identidade local e étnica, que se manifesta de forma vibrante a cerca de 20 quilômetros do Centro da capital baiana.
Uma celebração nascida da resistência
Um dos pilares dessa organização é Raimundo Bujão, figura conhecida em Itapuã e um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU) na Bahia. Ele conta que a dedicação da comunidade à festa reflete a própria história por trás dela. “A festa de Itapuã tem uma história, tem uma tradição que, para além da festa, é um espaço de resistência. A festa surge exatamente a partir da impossibilidade do lazer, da veneração à sua fé, dos nossos ancestrais escravizados”, explica Bujão.
Mesmo com uma história tão longa e um significado tão grande, que em 2026 completa 121 anos, o reconhecimento do poder público ainda é um desafio. Bujão destaca que a estrutura para a festa ainda depende muito do esforço popular. “Apesar da sua longevidade, a gente ainda encontra dificuldades sobre a questão da estrutura por parte do poder público”, comenta.
De fato, o que faz a festa brilhar é a paixão e o envolvimento de cada morador. “O que sustenta essa festa é a participação popular. Se não fossem os moradores, se não fosse a dedicação, a entrega, essa festa teria muito mais dificuldade. O que você vê de brilho aqui, tudo isso é em função do envolvimento direto da comunidade”, resume Bujão. Essa entrega é visível nos mais de 30 blocos que animaram a Avenida Octávio Mangabeira, entre Piatã e Itapuã, nesta quinta. A maioria desses blocos é organizada, financiada e vivenciada pelos próprios nativos.
Cultura que não se negocia e não se vende
Pensando em proteger esse ecossistema cultural que gera lazer, renda e fortalece a cidadania, Rose Santiago, líder comunitária ligada à Associação de Moradores de Itapuã, entidade organizadora da Lavagem, alerta para os perigos da comercialização. Para ela, a cultura é um bem inegociável. “Cultura, eu acho que cultura é inegociável. E eu vejo hoje assim, a cultura virando comércio. Quem faz cultura não vive da cultura, pode querer ter certeza de que hoje quem está ganhando dinheiro, quem está vivendo da cultura, é justamente essa galera que se apropria”, diz Rose.
A apropriação a que Rose se refere é a deturpação da imagem da Bahia e seus costumes para fins comerciais. Ela faz questão de diferenciar: “A gente tem que separar o que é uma baiana tradicional e o que é as baianas ditas, ‘baianas de evento’, essas mulheres que ficam nos aeroportos, distribuindo suvenires. Eu acho que não é bem essa imagem que a gente traz consigo conosco da nossa ancestralidade”, afirma.
A nativa de Itapuã reforça que, para evitar que o mercado do turismo cause mais desgastes na identidade cultural, é fundamental manter vivas as tradições populares. “A gente tem que prestar atenção e ver o que é que a gente está fabricando, porque a gente começa a ‘arenar’ a participação espontânea, uma manifestação popular com o dinheiro”, destaca. E ela conclui com uma mensagem de força e união: “Porque eles querem é isso, eles querem é acabar, eles querem apagar a gente. Então, a gente aqui, o povo unido, jamais será vencido.”







