Paulo Afonso · BA
Última hora
Operação prende 14 suspeitos em Salvador nesta manhãSTF retoma julgamento sobre marco temporal nesta tardeVitória empata em casa pela Copa do BrasilVagas de emprego no polo de Camaçari saltam 22%Salvador registra maior volume de chuva do mês
PI 637
Cultura

Lavagem de Itapuã: ativistas ressaltam força da comunidade em festa de 121 anos

Em Salvador, a tradicional Lavagem de Itapuã celebra 121 anos. Ativistas e líderes comunitários reforçam o caráter social, ancestral e a resistência popular.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Cultura
05 de fevereiro, 2026 · 20:55 3 min de leitura
Foto: Alana Dias / Bahia Notícias
Foto: Alana Dias / Bahia Notícias

A Lavagem de Itapuã, que acontece em Salvador, na Bahia, é muito mais que um evento religioso ou um simples folguedo. Para quem vive e respira a cultura do bairro, a festa é uma celebração profunda da comunidade, de suas raízes e da sua rica história ancestral. Nesta quinta-feira (5), em meio à efervescência da festividade, vozes de ativistas comunitários se levantaram para lembrar a todos o caráter social e a força ancestral que move essa tradição secular.

Publicidade

Itapuã, famoso por seu clima boêmio e suas paisagens litorâneas, se transforma anualmente para a sua lavagem, uma festa popular que já dura 121 anos. Essa celebração é, para os nativos, um momento de reafirmar a identidade local e étnica, que se manifesta de forma vibrante a cerca de 20 quilômetros do Centro da capital baiana.

Uma celebração nascida da resistência

Um dos pilares dessa organização é Raimundo Bujão, figura conhecida em Itapuã e um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU) na Bahia. Ele conta que a dedicação da comunidade à festa reflete a própria história por trás dela. “A festa de Itapuã tem uma história, tem uma tradição que, para além da festa, é um espaço de resistência. A festa surge exatamente a partir da impossibilidade do lazer, da veneração à sua fé, dos nossos ancestrais escravizados”, explica Bujão.

Mesmo com uma história tão longa e um significado tão grande, que em 2026 completa 121 anos, o reconhecimento do poder público ainda é um desafio. Bujão destaca que a estrutura para a festa ainda depende muito do esforço popular. “Apesar da sua longevidade, a gente ainda encontra dificuldades sobre a questão da estrutura por parte do poder público”, comenta.

Publicidade

De fato, o que faz a festa brilhar é a paixão e o envolvimento de cada morador. “O que sustenta essa festa é a participação popular. Se não fossem os moradores, se não fosse a dedicação, a entrega, essa festa teria muito mais dificuldade. O que você vê de brilho aqui, tudo isso é em função do envolvimento direto da comunidade”, resume Bujão. Essa entrega é visível nos mais de 30 blocos que animaram a Avenida Octávio Mangabeira, entre Piatã e Itapuã, nesta quinta. A maioria desses blocos é organizada, financiada e vivenciada pelos próprios nativos.

Cultura que não se negocia e não se vende

Pensando em proteger esse ecossistema cultural que gera lazer, renda e fortalece a cidadania, Rose Santiago, líder comunitária ligada à Associação de Moradores de Itapuã, entidade organizadora da Lavagem, alerta para os perigos da comercialização. Para ela, a cultura é um bem inegociável. “Cultura, eu acho que cultura é inegociável. E eu vejo hoje assim, a cultura virando comércio. Quem faz cultura não vive da cultura, pode querer ter certeza de que hoje quem está ganhando dinheiro, quem está vivendo da cultura, é justamente essa galera que se apropria”, diz Rose.

A apropriação a que Rose se refere é a deturpação da imagem da Bahia e seus costumes para fins comerciais. Ela faz questão de diferenciar: “A gente tem que separar o que é uma baiana tradicional e o que é as baianas ditas, ‘baianas de evento’, essas mulheres que ficam nos aeroportos, distribuindo suvenires. Eu acho que não é bem essa imagem que a gente traz consigo conosco da nossa ancestralidade”, afirma.

A nativa de Itapuã reforça que, para evitar que o mercado do turismo cause mais desgastes na identidade cultural, é fundamental manter vivas as tradições populares. “A gente tem que prestar atenção e ver o que é que a gente está fabricando, porque a gente começa a ‘arenar’ a participação espontânea, uma manifestação popular com o dinheiro”, destaca. E ela conclui com uma mensagem de força e união: “Porque eles querem é isso, eles querem é acabar, eles querem apagar a gente. Então, a gente aqui, o povo unido, jamais será vencido.”

Leia também