Ainda com o eco da folia de 2026, os preparativos para o Carnaval de Salvador, na Bahia, em 2027 já estão a todo vapor. A próxima edição promete ser a maior dos últimos anos, com um dia extra de festa começando com o 'Pipoco', o desfile gratuito de Léo Santana. No entanto, os desafios da edição passada, especialmente a organização dos blocos e trios na avenida, seguem sendo pauta prioritária.
Em entrevista recente, Washington Paganelli, presidente do Conselho Municipal do Carnaval e Outras Festas Populares (Comcar), levantou pontos cruciais sobre as polêmicas que movimentaram a festa e o que precisa ser ajustado.
Superlotação de trios independentes causa dor de cabeça
Uma das principais reclamações que surgiram durante o último Carnaval foi a grande quantidade de trios elétricos e o curto espaço de tempo entre eles, causando aglomeração e dificultando o fluxo. A cantora Anitta, por exemplo, fez um apelo ao prefeito Bruno Reis para que a situação fosse revista, sugerindo um maior espaçamento entre os trios.
“Se pudesse, com toda a humildade do mundo, dar uma sugestão, diria que acredito que, se espaçar um pouco mais o tempo entre a saída dos trios, ajudaria demais nesse problema. Porque quando temos mais espaço entre os trios da frente e de trás, conseguimos controlar melhor o andamento, e o público consegue se espaçar um pouco mais.”
Para Paganelli, porém, aumentar o intervalo entre os trios é uma missão quase impossível. Segundo ele, com a quantidade atual de trios, um maior espaçamento tornaria o Carnaval uma festa ininterrupta, esgotando artistas e público, e impedindo a organização dos circuitos. Ele destacou que o grande problema são os muitos trios independentes que desfilam sem artistas de grande apelo.
O presidente do Comcar criticou que muitos desses trios “não acrescentam em nada para o Carnaval” e que, ao contrário dos blocos que geram milhares de empregos e renda para o município, um trio independente emprega cerca de 20 pessoas. Para ter uma ideia, no primeiro dia do Circuito Dodô (Barra-Ondina), dos 28 trios na rua, 25 não eram blocos, e 19 deles eram iniciativas públicas. No segundo dia, dos 20 trios, apenas 7 eram blocos.
Paganelli sugeriu que artistas independentes busquem empresas privadas para custear seus desfiles, liberando a prefeitura e o governo dos custos e desfilando em locais com mais espaço, sem ocupar o lugar de blocos tradicionais.
Fila dos blocos gera disputa judicial
Outra situação que gerou bastante polêmica foi a ordem de desfile dos blocos. A cantora Daniela Mercury chegou a acionar a Justiça para reivindicar a vaga que era do bloco Camaleão no domingo e na segunda-feira. Ela conseguiu uma liminar para passar na frente de outros blocos como Olodum, Camaleão e Coruja, mas a decisão foi suspensa pelo Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) após recursos dos blocos afetados.
Paganelli esclareceu que o Comcar não pode impedir que os artistas busquem seus direitos na Justiça. Contudo, ele enfatizou que a ordem de desfile é definida pela data de fundação do bloco, um acordo transparente que funciona há mais de 40 anos e é discutido em assembleias com todos os envolvidos.
Presidente do Comcar exige provas de suposta venda de vagas
Em meio às discussões, surgiram especulações nas redes sociais sobre uma suposta venda de vagas na fila de desfile do Circuito Barra-Ondina. Paganelli foi enfático ao negar a existência de tal prática no Carnaval de Salvador e desafiou quem faz as acusações a apresentar provas.
“Quando se fala venda, é muito subjetivo. É o que as pessoas falam, certo? Mas até hoje não apareceu nenhuma prova. Eu acho que, a todos que acusam, cabe a eles mostrar a prova. [...] Se tem alguém que está acusando, que apresentem as provas e aí nós tomaremos as medidas possíveis desde quando haja a prova. Estou doido para isso, para que apareçam as provas”, afirmou o presidente do Comcar.
Vale lembrar que o tema da venda de vagas já foi investigado pelo Ministério Público em 2013, após denúncias envolvendo o bloco Bróder, do ex-BBB Edilson Capetinha, que supostamente teria vendido seu espaço para o bloco Largadinho. Na época, o Comcar suspendeu temporariamente o bloco. Em 2017, o mesmo bloco foi alvo de nova investigação por troca de atrações sem aviso prévio.
O Carnaval é um motor econômico para Salvador, com um investimento de R$ 90 milhões do governo e prefeitura em 2026, gerando um retorno econômico superior a R$ 3 bilhões. Para discutir essas e outras melhorias na festa, o Fórum do Carnaval será realizado nos dias 14 e 15 de abril, reunindo entidades carnavalescas, empresários e jornalistas.







