Uma bordadeira do sertão alagoano entrou para a história do ensino superior brasileiro. Maria das Graças Correia Gomes, a Mestra Graça Correia, de Olho d'Água do Casado — município às margens do São Francisco, conhecido como o Portal dos Cânions —, recebeu o título de Mestre de Notório Saber pelo Centro Universitário CESMAC, em Maceió.
A solenidade de entrega aconteceu na noite do dia 2 de julho, tornando-se a primeira vez que uma instituição privada de ensino superior concedeu a honraria a representantes da cultura popular brasileira. Além de Graça Correia, foi homenageado o mestre José Miguel da Silva Lima, de Girau do Ponciano, conhecido como Mestre Militar.
A entrega dos títulos integrou a programação do Encontro Nacional dos Mestres e Mestras do Notório Saber, realizado entre os dias 1º e 3 de julho no Centro Cultural Reitor João Sampaio, em Maceió. O evento foi organizado pelo Ministério da Cultura em parceria com diversas instituições, e reuniu cerca de 300 participantes, incluindo mestras e mestres de todas as unidades da federação, além de docentes e pesquisadores.
Graça Correia começou a bordar ainda criança, aos 9 anos de idade. Aprendeu o ofício com a avó e a mãe, e com o passar dos anos desenvolveu peças inspiradas em sua cidade natal, Olho d'Água do Casado, transformando o bordado em uma expressão da identidade local. No sertão alagoano, ela fez do bordado livre um instrumento de transformação — a técnica deixou de ser apenas uma fonte de renda para se tornar expressão artística e patrimônio cultural.
A artesã passou a ensinar outras mulheres e fundou a Associação Artesãs Casadenses, que reúne mais de 20 integrantes, com impacto que atinge mais de 40 mulheres da região, entre quilombolas e assentadas da reforma agrária. Com o bordado livre, o grupo produz peças de vestiário e acessórios, fortalecendo a renda de mulheres e contribuindo para o turismo da cidade.
Ao instituir o título de Mestre de Notório Saber voltado aos mestres e mestras da cultura popular, o CESMAC tornou-se a primeira instituição privada de ensino superior do país a criar uma honraria com esse propósito. A concessão foi aprovada pelo Conselho Universitário (CONSUNI) e integra uma iniciativa pioneira da extensão universitária da instituição.
Os nomes foram indicados pela Federação das Organizações da Cultura Popular e do Artesanato Alagoano (FOCUARTE). As indicações passaram por um criterioso processo de avaliação que considera, entre outros aspectos, a atuação contínua por mais de duas décadas na preservação e transmissão dos saberes tradicionais e o reconhecimento pelas comunidades onde atuam.
A ocasião teve um fator inédito: é a primeira vez que uma instituição privada de ensino superior no país concede tal honraria, que tem peso de doutor, para público externo da academia com reconhecida trajetória cultural e capacidade de repasse do saber. O presidente do Consórcio Nordeste, Aterlane Martins, que estava presente no evento, destacou a importância da iniciativa, ressaltando que por mais de 20 anos apenas instituições públicas concediam esse título.
A certificação de Notório Saber busca dar reconhecimento intelectual aos grandes guardiões da cultura tradicional — artesãos, cordelistas, mestres de folguedos, rezadeiras, lideranças indígenas e quilombolas —, defendendo a equivalência pedagógica e social entre a vivência, a ancestralidade e a transmissão oral, e o conhecimento produzido nos meios acadêmicos.
Para a região do São Francisco, o reconhecimento de Mestra Graça Correia não é apenas uma homenagem individual. É o sinal de que o saber tecido no sertão, fio a fio, merece o mesmo respeito que qualquer diploma universitário.







