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Cultura

Bordadeira do sertão alagoano, Mestra Graça Correia se torna uma das primeiras diplomadas pelo CESMAC com título de Notório Saber

Honraria inédita, concedida por uma instituição privada pela primeira vez no Brasil, reconhece décadas de bordado livre e impacto social em Olho d'Água do Casado, às margens do São Francisco.

Redação ChicoSabeTudo
07 de julho, 2026 · 00:42 3 min de leitura
Mestra Graça Correia, artesã de Olho d'Água do Casado (AL), exibindo peças de bordado livre do sertão alagoano
Mestra Graça Correia, artesã de Olho d'Água do Casado (AL), exibindo peças de bordado livre do sertão alagoano

Uma bordadeira do sertão alagoano entrou para a história do ensino superior brasileiro. Maria das Graças Correia Gomes, a Mestra Graça Correia, de Olho d'Água do Casado — município às margens do São Francisco, conhecido como o Portal dos Cânions —, recebeu o título de Mestre de Notório Saber pelo Centro Universitário CESMAC, em Maceió.

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A solenidade de entrega aconteceu na noite do dia 2 de julho, tornando-se a primeira vez que uma instituição privada de ensino superior concedeu a honraria a representantes da cultura popular brasileira. Além de Graça Correia, foi homenageado o mestre José Miguel da Silva Lima, de Girau do Ponciano, conhecido como Mestre Militar.

A entrega dos títulos integrou a programação do Encontro Nacional dos Mestres e Mestras do Notório Saber, realizado entre os dias 1º e 3 de julho no Centro Cultural Reitor João Sampaio, em Maceió. O evento foi organizado pelo Ministério da Cultura em parceria com diversas instituições, e reuniu cerca de 300 participantes, incluindo mestras e mestres de todas as unidades da federação, além de docentes e pesquisadores.

Graça Correia começou a bordar ainda criança, aos 9 anos de idade. Aprendeu o ofício com a avó e a mãe, e com o passar dos anos desenvolveu peças inspiradas em sua cidade natal, Olho d'Água do Casado, transformando o bordado em uma expressão da identidade local. No sertão alagoano, ela fez do bordado livre um instrumento de transformação — a técnica deixou de ser apenas uma fonte de renda para se tornar expressão artística e patrimônio cultural.

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A artesã passou a ensinar outras mulheres e fundou a Associação Artesãs Casadenses, que reúne mais de 20 integrantes, com impacto que atinge mais de 40 mulheres da região, entre quilombolas e assentadas da reforma agrária. Com o bordado livre, o grupo produz peças de vestiário e acessórios, fortalecendo a renda de mulheres e contribuindo para o turismo da cidade.

Ao instituir o título de Mestre de Notório Saber voltado aos mestres e mestras da cultura popular, o CESMAC tornou-se a primeira instituição privada de ensino superior do país a criar uma honraria com esse propósito. A concessão foi aprovada pelo Conselho Universitário (CONSUNI) e integra uma iniciativa pioneira da extensão universitária da instituição.

Os nomes foram indicados pela Federação das Organizações da Cultura Popular e do Artesanato Alagoano (FOCUARTE). As indicações passaram por um criterioso processo de avaliação que considera, entre outros aspectos, a atuação contínua por mais de duas décadas na preservação e transmissão dos saberes tradicionais e o reconhecimento pelas comunidades onde atuam.

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A ocasião teve um fator inédito: é a primeira vez que uma instituição privada de ensino superior no país concede tal honraria, que tem peso de doutor, para público externo da academia com reconhecida trajetória cultural e capacidade de repasse do saber. O presidente do Consórcio Nordeste, Aterlane Martins, que estava presente no evento, destacou a importância da iniciativa, ressaltando que por mais de 20 anos apenas instituições públicas concediam esse título.

A certificação de Notório Saber busca dar reconhecimento intelectual aos grandes guardiões da cultura tradicional — artesãos, cordelistas, mestres de folguedos, rezadeiras, lideranças indígenas e quilombolas —, defendendo a equivalência pedagógica e social entre a vivência, a ancestralidade e a transmissão oral, e o conhecimento produzido nos meios acadêmicos.

Para a região do São Francisco, o reconhecimento de Mestra Graça Correia não é apenas uma homenagem individual. É o sinal de que o saber tecido no sertão, fio a fio, merece o mesmo respeito que qualquer diploma universitário.

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