A emoção de um reencontro que estava guardado há tempos vai tomar conta do Carnaval de Salvador em 2026. O bloco Apáxes do Tororó, um dos pioneiros da festa baiana, anunciou seu aguardado retorno ao Circuito Campo Grande. E para celebrar em grande estilo, o grupo vai homenagear ninguém menos que Carlinhos Brown, carinhosamente apelidado de “Cacique do Candeal”.
“Apache tem tanto amor no desfilar que, quem não segura os olhos, é bem capaz de chorar”, diz um famoso verso de Nelson Rufino, escrito para o bloco. Essa frase resume bem o que o Apáxes representa: uma mistura de história, amor e cultura que agora volta a brilhar na Avenida.
Um Pioneiro que Revolucionou o Carnaval
Fundado no fim da década de 1960, o Apáxes não é apenas um bloco, é um marco na história do Carnaval de Salvador. O presidente Adelmo Costa conta com orgulho as inovações que o grupo trouxe para a festa:
“O Apáxes surge no fim da década de 1960 e foi o primeiro a fazer uma revolução no Carnaval, com sonorização e músicas próprias, trazendo aquela multidão incalculável, aquela massa bacana. Deixamos de participar do Carnaval do Campo Grande, até porque veio a pandemia e houve falta de recurso financeiro, mas não deixamos de participar da festa. Estávamos em outro circuito, que é o Circuito Batatinha (Pelourinho), um circuito menor. E este ano estamos homenageando nosso grande amigo, Carlinhos Brown, que é uma pessoa agradabilíssima para nós. Estamos muito animados e ansiosos.”
Além de ter sido o primeiro a inovar com som próprio e carros alegóricos em um trio ornamentado, o Apáxes foi também pioneiro em investir em segurança e profissionais de saúde para os foliões. Até mesmo o conceito do “bar andante” no trio, algo tão comum hoje, nasceu com eles. Para muitos, é o laboratório da música que se faz no Carnaval até hoje, tendo gravado o primeiro LP ao vivo em ambiente externo na década de 80. “É mais velho que o Ilê Aiyê, que o Olodum, Ara Ketu, Muzenza, Malê Debalê, Comanches, Camaleão e Eva. Todo mundo surgiu depois, e o Apáxes continua resistindo”, reforça Adelmo Costa.
Guardião da Memória Indígena e Afro-Brasileira
O Bloco Apáxes do Tororó, que mudou sua grafia na década de 90 para fazer uma referência direta ao axé e às línguas originárias, tem uma missão que vai além da folia: guardar e celebrar a memória indígena e afro-brasileira. Para o multiartista e estudioso Luiz Guimarães, conhecido como Caboclo de Cobre, o retorno do bloco é fundamental para entender a própria formação da cultura baiana e nacional.
“É o bloco mais antigo em atividade na Bahia e, para além de tudo, foi um bloco que historicamente confluiu com pautas inovadoras. O Apáxes é o esteio da permanência dessa cultura em Salvador, que é um território indígena Tupinambá. Precisamos debater esse corpo indígena dentro do nosso processo de racismo, que não é direcionado apenas ao corpo negro.”
Caboclo de Cobre, que atua como produtor do desfile de 2026 em parceria com o bloco, lembra que a cultura indígena está presente em diversas manifestações brasileiras, do candomblé ao maracatu, passando pelos remédios e até na indústria do chocolate.
Superando Obstáculos e Olhando para o Futuro
Apesar de sua rica história, o Apáxes enfrentou momentos difíceis, como a falta de recursos e apoio que o tirou do circuito principal. Adelmo Costa expressa o desânimo de ver um bloco tão importante ser esquecido e ter que lidar com valores de editais públicos que não condizem com sua história e estrutura.
“Quando você não tem apoio financeiro para colocar a instituição na rua como deve ser, a gente fica de mãos atadas. Por exemplo, este ano temos o apoio do projeto Ouro Negro, do Governo do Estado, mas o valor que nos deram ficou difícil. Eu tenho 57 anos de história aqui. O valor que recebemos é o mesmo de blocos iniciantes.”
Para o desfile de 2026, com o tema “A Volta do Rei de Oyó à ‘Tribo Americana’ Apáxes do Tororó”, o bloco promete uma experiência que costura o passado, presente e futuro. Irão participar coletivos indígenas das etnias Kiriri, Xukuru-Kariri, Kariri-Xocó e Tupinambá. Os figurinos serão inspirados nas indumentárias cerimoniais dos povos de Abya Yala (Américas) e na realeza africana de Oyó. A banda Cabokaji, de Caboclo de Cobre, também trará sua sonoridade única, mesclando maracatu, xote, baião, guitarrada, calipso e carimbó.
Os abadás já estão à venda na plataforma Ingresso Simples, com preços populares: R$ 150,00 (individual) e R$ 250,00 (casadinha). Além disso, para garantir a presença das comunidades indígenas, o bloco lançou uma vaquinha solidária. O link para doações será divulgado no perfil oficial do bloco no Instagram.
O retorno do Apáxes não é só sobre o Carnaval. É um movimento para reativar o boêmio bairro do Tororó turisticamente, expandir projetos sociais como aulas de capoeira e percussão, e, acima de tudo, fazer Salvador repensar sua própria formação e a importância da cultura indígena em sua identidade.







