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Cultura

A última dedicatória: escritor baiano relembra amizade e os dias finais com Alexei Bueno

Membro da Academia de Letras da Bahia recebeu um autógrafo do poeta vinte dias antes da morte e conta o choque ao saber do fim do grande amigo

Redação ChicoSabeTudo
09 de julho, 2026 · 03:14 3 min de leitura
Retrato do poeta Alexei Bueno, escritor e intelectual brasileiro morto em junho de 2026
Retrato do poeta Alexei Bueno, escritor e intelectual brasileiro morto em junho de 2026

No começo da manhã do dia 27 de junho de 2026, um membro da Academia de Letras da Bahia recebeu pelo WhatsApp uma das piores notícias de sua vida: o poeta, ensaísta, crítico, tradutor e editor Alexei Bueno havia morrido, no Rio de Janeiro, aos 63 anos. O cronista baiano, que prefere narrar os fatos em vez de se colocar em cena, diz que jamais esperaria por aquela notícia — Alexei era vinte anos mais novo e tinha projetos pela frente.

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A amizade entre os dois foi construída ao longo de décadas, por trocas de publicações e visitas mútuas. Antes mesmo de se conhecerem pessoalmente, foi Alexei quem, em 1996, ainda como editor na Nova Fronteira, lutou pela publicação do livro "Memória da Chuva", do escritor baiano. A obra acabou recebendo, dois anos depois, o Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores, no Rio de Janeiro.

Com viagens do cronista ao Rio e de Alexei à Bahia, a amizade foi se solidificando. O poeta carioca tornou-se um dos principais críticos da obra poética do escritor baiano — ao lado de Ivan Junqueira. Essa postura crítica rigorosa era, aliás, uma marca de Alexei. Poeta, ensaísta, crítico, tradutor, editor, pesquisador e organizador de obras, ele nunca escrevia para promover mediocridades, segundo o relato do cronista baiano.

O peso dessa seriedade intelectual ficou registrado num dos trabalhos mais ambiciosos de Alexei: "Uma História da Poesia Brasileira", publicado em 2007, é a obra de alguém que não via a literatura como sucessão de modismos, escolas e slogans didáticos, mas como continuidade conflituosa, herança em disputa. O livro rendeu-lhe admirações e também críticas — exatamente porque o autor não era de fazer concessões sem mérito.

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No plano internacional, Alexei era altamente reconhecido em Portugal por seus estudos sobre Camões. A doença que o levaria à morte foi descoberta no início do mês, depois que passou mal em Portugal, ao integrar discussões sobre o poeta português. O diagnóstico foi dado no Brasil. Premiado duas vezes com o Jabuti, ele tratava um câncer.

Vinte dias antes de morrer, Alexei ainda teve forças para autografar sua mais recente peça de teatro — um Auto Sacramental intitulado "O Poste" — e enviá-la ao amigo baiano. A dedicatória, datada de 7 de junho de 2026, trazia palavras de velha amizade e de "sempre nova admiração". O cronista leu o texto quase de imediato e enviou elogios pelo WhatsApp. Mas a resposta demorou. O silêncio incomum durou dias, até que a ex-mulher de Alexei, Mara, escreveu pelo celular dele informando sobre uma internação. Logo depois, veio a notícia da morte.

A Academia Brasileira de Letras destacou Alexei como um dos "grandes poetas e uma das maiores figuras da cultura da língua portuguesa". Ele deixa poemas, traduções, ensaios, edições, antologias, polêmicas e a imagem rara de um homem que levou a poesia a sério quando quase tudo ao redor parecia pedir o contrário.

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Para o cronista baiano, a perda é pessoal e literária ao mesmo tempo. Ele se diz um dos privilegiados — ao lado do poeta baiano Florisvaldo Mattos — por ter merecido a atenção crítica de Alexei Bueno. E garante que as saudades serão imensas também na Bahia, terra que o poeta carioca visitou mais de uma vez e onde deixou amigos e admiradores.

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