No começo da manhã do dia 27 de junho de 2026, um membro da Academia de Letras da Bahia recebeu pelo WhatsApp uma das piores notícias de sua vida: o poeta, ensaísta, crítico, tradutor e editor Alexei Bueno havia morrido, no Rio de Janeiro, aos 63 anos. O cronista baiano, que prefere narrar os fatos em vez de se colocar em cena, diz que jamais esperaria por aquela notícia — Alexei era vinte anos mais novo e tinha projetos pela frente.
A amizade entre os dois foi construída ao longo de décadas, por trocas de publicações e visitas mútuas. Antes mesmo de se conhecerem pessoalmente, foi Alexei quem, em 1996, ainda como editor na Nova Fronteira, lutou pela publicação do livro "Memória da Chuva", do escritor baiano. A obra acabou recebendo, dois anos depois, o Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores, no Rio de Janeiro.
Com viagens do cronista ao Rio e de Alexei à Bahia, a amizade foi se solidificando. O poeta carioca tornou-se um dos principais críticos da obra poética do escritor baiano — ao lado de Ivan Junqueira. Essa postura crítica rigorosa era, aliás, uma marca de Alexei. Poeta, ensaísta, crítico, tradutor, editor, pesquisador e organizador de obras, ele nunca escrevia para promover mediocridades, segundo o relato do cronista baiano.
O peso dessa seriedade intelectual ficou registrado num dos trabalhos mais ambiciosos de Alexei: "Uma História da Poesia Brasileira", publicado em 2007, é a obra de alguém que não via a literatura como sucessão de modismos, escolas e slogans didáticos, mas como continuidade conflituosa, herança em disputa. O livro rendeu-lhe admirações e também críticas — exatamente porque o autor não era de fazer concessões sem mérito.
No plano internacional, Alexei era altamente reconhecido em Portugal por seus estudos sobre Camões. A doença que o levaria à morte foi descoberta no início do mês, depois que passou mal em Portugal, ao integrar discussões sobre o poeta português. O diagnóstico foi dado no Brasil. Premiado duas vezes com o Jabuti, ele tratava um câncer.
Vinte dias antes de morrer, Alexei ainda teve forças para autografar sua mais recente peça de teatro — um Auto Sacramental intitulado "O Poste" — e enviá-la ao amigo baiano. A dedicatória, datada de 7 de junho de 2026, trazia palavras de velha amizade e de "sempre nova admiração". O cronista leu o texto quase de imediato e enviou elogios pelo WhatsApp. Mas a resposta demorou. O silêncio incomum durou dias, até que a ex-mulher de Alexei, Mara, escreveu pelo celular dele informando sobre uma internação. Logo depois, veio a notícia da morte.
A Academia Brasileira de Letras destacou Alexei como um dos "grandes poetas e uma das maiores figuras da cultura da língua portuguesa". Ele deixa poemas, traduções, ensaios, edições, antologias, polêmicas e a imagem rara de um homem que levou a poesia a sério quando quase tudo ao redor parecia pedir o contrário.
Para o cronista baiano, a perda é pessoal e literária ao mesmo tempo. Ele se diz um dos privilegiados — ao lado do poeta baiano Florisvaldo Mattos — por ter merecido a atenção crítica de Alexei Bueno. E garante que as saudades serão imensas também na Bahia, terra que o poeta carioca visitou mais de uma vez e onde deixou amigos e admiradores.







