Um estudo da farmacêutica Novo Nordisk, apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), em Madrid, mostrou redução no risco de eventos cardiovasculares entre quem usou Wegovy em comparação com a tirzepatida.
O que esses números significam na prática? Vamos por partes para entender a amostra, os resultados e as possíveis implicações.
O estudo
A análise usou dados reais do banco norte-americano Komodo Research. Foram incluídas pessoas com 45 anos ou mais que começaram tratamento com Wegovy 2,4 mg ou com tirzepatida a partir de 13 de maio de 2022. Para comparar grupos pareados, os participantes foram organizados em conjuntos de 10.625 pacientes com características semelhantes.
Resultados principais
Os eventos observados foram poucos, mas a diferença entre os grupos foi notável:
- Wegovy: 15 eventos cardiovasculares (0,1%).
- Tirzepatida: 39 eventos (0,4%).
Isso se traduziu em uma redução de aproximadamente 29% no risco de eventos cardiovasculares quando consideradas todas as situações, mesmo com interrupções no tratamento. Nos desfechos mais graves — infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e morte (seja cardiovascular ou por outras causas) — a queda do risco chegou a 57% entre quem manteve o tratamento de forma contínua.
“O estudo mostra que a semaglutida traz benefícios cardiovasculares comprovados às pessoas que vivem com diabetes ou obesidade”, disse Ludovic Helfgott.
Como os medicamentos atuam
Wegovy e Ozempic, ambos da Novo Nordisk, têm como princípio ativo a semaglutida, que age no receptor GLP‑1, ajudando a aumentar a sensação de saciedade e a controlar a glicemia. A tirzepatida atua em dois receptores (GLP‑1 e GIP) e também tem indicação robusta para pessoas com obesidade ou diabetes tipo 2.
“O tratamento com Wegovy vai além do emagrecimento, e também mostra o potencial do medicamento na proteção cardiovascular”, afirmou Marília Fonseca, endocrinologista e diretora da área médica da Novo Nordisk no Brasil.
Contexto no Brasil
No país, havia cinco canetas aprovadas para emagrecimento, incluindo dois produtos da Novo Nordisk e opções desenvolvidas por laboratórios nacionais. A farmacêutica detinha as patentes de Wegovy e Ozempic, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) havia proibido a manipulação desses produtos, o que restringe alternativas de acesso fora das vias industriais.
O acesso individual dependia de combinação de fatores: aprovação regulatória, decisão médica, cobertura de planos de saúde e preço — elementos que podem limitar quem consegue utilizar esses tratamentos, tanto no sistema público quanto no privado.
O que levar daqui
Os resultados apresentados no ESC vêm de evidência observacional em população real e devem ser considerados nas discussões científicas e clínicas sobre o papel da semaglutida e da tirzepatida na proteção cardiovascular. Em resumo: os dados indicam benefício associado ao uso de Wegovy, especialmente quando o tratamento é mantido de forma contínua, mas decisões clínicas sempre dependem do contexto individual de cada paciente.