A junção entre tradição e algoritmos tem aberto caminhos curiosos na fabricação de cerveja. Desde 2016, cervejarias e pesquisadores têm usado inteligência artificial para criar receitas, analisar sabores e afinar qualidade e logística — trazendo ferramentas novas para um ofício antigo.
Marcos e exemplos
Em 2016, a IntelligentX Brewing Company lançou a primeira cerveja desenvolvida com IA no mercado, usando o algoritmo Automated Brewing Intelligence (ABI) para ajustar receitas com base no retorno dos consumidores. Dois anos depois, em 2018, a Carlsberg aplicou IA para prever perfis de sabor e adaptar suas fórmulas; e, sete anos depois, uma grande marca celebrou seus 150 anos com a Beck’s Autonomous, apresentada como 100% feita por inteligência artificial.
No Brasil, a Prussia Bier, de Minas Gerais, lançou em 2023 uma Black IPA com receita desenvolvida com auxílio do ChatGPT e rótulo com imagens geradas pelo Midjourney. No mesmo ano, a St. Austell Brewery (Reino Unido) criou a IPA apelidada de “Hand Brewed by Robots” e a Coedo Brewery (Japão) usou IA para mapear preferências e lançar quatro cervejas direcionadas a diferentes faixas etárias.
Projetos experimentais
Projetos independentes também testaram combinações inesperadas. O Species X Beer Project, criado em 2021 nos EUA, começou a treinar seus modelos com receitas, leveduras e lúpulos a partir de 2022. Em 2024, a IA passou a guiar a fabricação, sugerindo juntas inéditas de ingredientes — e algumas das cervejas foram bem avaliadas.
“O robô sugeriu misturar malte Maris Otter, geralmente encontrado em stouts, com xarope de candi belga”, contou o fundador; segundo ele, o resultado foi uma das melhores lagers produzidas. Ainda assim, a cervejaria encerrou as atividades em 2024 por dificuldades financeiras.
O que dizem especialistas e pesquisadores
Para executivos do setor, a IA abre portas para receitas que não surgiriam apenas pela intuição humana. Como disse Prinz Pinakat, chefe da divisão de cervejas da Tilray Brands, de Nova York: “Nos dá acesso a novas receitas que não havíamos pensado antes”.
No campo acadêmico, a KU Leuven (Bélgica) analisou 250 cervejas belgas em 2024 com algoritmos capazes de relacionar compostos químicos a percepções sensoriais.
“Os modelos que desenvolvemos nos ajudam a entender a complexa relação entre a química de uma cerveja, seu sabor e como os consumidores irão apreciá-la”, disse Kevin Verstrepen, engenheiro de biociências da KU Leuven.
Além da formulação, relatos da indústria e da imprensa apontam usos práticos da IA em fermentação mais precisa, controle de qualidade e otimização logística — tarefas que aliviam o trabalho manual e reduzem variações indesejadas.
Mas será que a máquina vai tirar o lugar do mestre cervejeiro? A maioria dos especialistas acredita que não: a tendência é que a IA se torne parte integrante do processo, oferecendo apoio técnico, enquanto o artesanato continua a definir a identidade das marcas e o toque final das cervejas.
Em resumo: algoritmos estão virando parceiros de bancada na cervejaria. Eles sugerem combinações, analisam dados e agilizam processos — mas, no final, o equilíbrio entre tecnologia e tradição é o que vai moldar os sabores que chegam ao copo.